- Bom dia!
- Bom dia, Doutô!
- Tudo bom, como a senhora está?
- É senhorita! Nada bem, nada bem.
- Mas o que a senhorita está sentindo?
- Sei não, Doutô, sei não. É uma canseira, umas dores no peito.
- A senhora tem tem algum problema no coração?
- É senhorita. Olha, Doutô, acho que é a segunda vez que vou no médico. Nunca precisei, sabe?
- Ah, sei. Mas é bom ir ao médico. Vamos ver o que há com a senhora.
E então o Sr. Doutor a deitou na maca, ouviu o coração , o pulmão e constatou que nada a afligia mas, por via das dúvidas, resolveu pedir mais exames.
Ela balançou a cabeça em sinal de afirmação, pegou as indicações e seguiu para o laboratório. E foi, como sempre, em silêncio, falando baixinho e com o olhar distante. O olhar deve ter se perdido em algum lugar do tempo.
Tirou sangue, fez eletro e permaneceu na expectativa quieta, calada na sala de espera com as pernas juntas e as mãos cruzadas sob os joelhos. E foi ali que o diagnóstico veio ao seu encontro. Ela então sabia o que lhe afligia.
Duas horas passadas, o Sr. Doutor a chama e questiona sobre os sintomas antes sentidos.
- Doutô, pode se poupar, eu já sei o que tenho. Com a minha idade só pode ser saudade de casa.
- A senhora está muito bem. Como uma menina!
E seguiu para casa onde fez uma boa comida, banhou-se, perfumou-se e foi pra cama. Antes acendeu uma vela para iluminar a jornada. Rezou pedindo o retorno ao lar com muita fé.
Ao alvorecer seu pedido já havia sido atendido e seus olhos não mais veriam o dia nascer.
Foi, aos oitenta e quatro anos, ao encontro daquilo que entendia por Casa.