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Desvarios, Davaneios, Insanidades e outros temperos a gosto…

A Senhorita. 19 Maio, 2009

Arquivado em: Ser ou não ser — Flora @ 8:14 pm

- Bom dia!

- Bom dia, Doutô!

- Tudo bom, como a senhora está?

- É senhorita! Nada bem, nada bem.

- Mas o que a senhorita está sentindo?

- Sei não, Doutô, sei não. É uma canseira, umas dores no peito.

- A senhora tem tem algum problema no coração?

- É senhorita. Olha, Doutô, acho que é a segunda vez que vou no médico. Nunca precisei, sabe?

- Ah, sei. Mas é bom ir ao médico. Vamos ver o que há com a senhora.

E então o Sr. Doutor a deitou na maca, ouviu o coração , o pulmão e constatou que nada a afligia mas, por via das dúvidas, resolveu pedir mais exames.

Ela balançou a cabeça em sinal de afirmação, pegou as indicações e seguiu para o laboratório. E foi, como sempre, em silêncio, falando baixinho e com o olhar distante. O olhar deve ter se perdido em algum lugar do tempo.

Tirou sangue, fez eletro e permaneceu na expectativa quieta, calada na sala de espera com as pernas juntas e as mãos cruzadas sob os joelhos. E foi ali que o diagnóstico veio ao seu encontro. Ela então sabia o que lhe afligia.

Duas horas passadas, o Sr. Doutor a chama e questiona sobre os sintomas antes sentidos.

- Doutô, pode se poupar, eu já sei o que tenho. Com a minha idade só pode ser saudade de casa.

- A senhora está muito bem. Como uma menina!

E seguiu para casa onde fez uma boa comida, banhou-se, perfumou-se e foi pra cama. Antes acendeu uma vela para iluminar a jornada. Rezou pedindo o retorno ao lar com muita fé.

Ao alvorecer seu pedido já havia sido atendido e seus olhos não mais veriam o dia nascer.

Foi, aos oitenta e quatro anos, ao encontro daquilo que entendia por Casa.

 

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