Meia-noite, a noite estava linda e ela estava cansada de não fazer nada. Pensou em fumar um cigarro, mas detestava fumar dentro de casa. Pensou em abrir uma garrafa de vinho e ficar bêbada de verdade na segurança do seu lar. Pensou em ligar para alguém, talvez convidar para uma visita íntima. Todas as idéias a deixaram entediada.
- Insônia é uma coisa irritante.
Ligou a TV, procurou algo para assistir. Com isso se lembrou que estava louca de vontade de comer pipoca e tomar um guaraná. Não tinha guaraná, obviamente.
- Porque a vida faz a vida ficar mais difícil? Geladeiras deviam ser abastecidas automaticamente por guaraná e coca-cola.
Colocou uma camiseta mas se recusou a colocar o sutiã, não que quisesse ficar sexy mas fazer uma gracinha pro mundo seria bom… Seria impossível ela ficar sexy, estava muito irritada. Pegou o carro – a merda do carro, como se referia ao objeto – e foi à padaria. Comprou o guaraná, pediu um café expresso e foi embora.
- Graças a Deus, ninguém quis falar comigo.
Uma da manhã, milho na panela, guaraná no copo e a bela cafeteira recém adquirida fazendo um belo expresso.
Toca a campainha.
- É bom que alguém tenha morrido
- Oi!
- …
- Não vai me falar oi?
- …
- Você é muito engraçada e seu peito tá aparecendo!
- Estou na minha casa, não uso sutiã aqui. Aqui é um território onde não se usa sutiã, nem com ordem divina!
- Você é muito engraçada.
Ela estava em choque, muito mais irritada que antes.
- O que você está fazendo? Hummm…. Guaraná gelado de madrugada!
- O que você está fazendo?
- Você é a pessoa mais mal humorada que eu conheço. Venha cá, me dê um abraço.
- Não.
Ele era um caso antigo que só aparecia em pesadelos ou em dias em que ela estava muito irritada. Ela já acreditava que ele era um tipo de aparição, lenda urbana ou algo que valha. Talvez ele nem estivesse lá, fosse coisa da cabeça dela. E ela gostava dele ainda, mas ele era casado, tinha uma mulher linda e ela não queria descer pra aquele play.
Ele gostava dela, mas também gostava da esposa. Eram mulheres diferentes e interessantes, cada uma ao seu estilo. Sempre que ficava entediado corria para ela, sabia que ela não faria nada com ele mas ainda sim queria ter o prazer de suas histórias, de sua falta de rotina. Apesar de amar a esposa, ela fazia falta. Quase todos os dias.
- Já não pedi pra você não vir mais aqui?
- Não. Você quer que eu vá?
- Você quer um pijama?
- Quero um café desse trem maluco aí e o meu pijama.
- Seu pijama? Esse pijama é comunitário… Todo homem que vem aqui usa.
- Sério?
- Mentira, você é o único homem que dorme vestido nesta casa…
- Sério?
- Mentira, você é o único homem que dorme nesta casa.
- Sério?
- Você quer me irritar?
- Vem aqui, morena, pára de bancar a durona…
Ele quebrava ali o gelo… Cócegas aqui, cheiros ali, abraços longos e silenciosos acolá. Pronto em dez minutos ela já estava relaxada.
- O que é que você está fazendo de pé uma hora dessas?
- Acabou a pilha do meu vibrador! O que é que você está fazendo fora de sua casa uma hora dessas?
- Acabaram os remédios lá em casa.
- Remédios?
- Novalgina e Viagra.
- Ai que decadência… Comigo você nunca usou isso, né?
- Não, você nunca teve dor de cabeça.
Como ela adorava aquelas comparações bobas. Podia ser mentira, mas pelo menos nas aparições ela tinha que ser a mais bonita, a mais gostosa e a melhor na cama.
- Vai lá, põe o pijama que a pipoca tá quase pronta. O filme já vai começar.
- Impressionante como você sabe o que eu vim procurar.
- Leva o guaraná e os copos, por favor
Ele se trocou, ajeitou os travesseiros e se deitou na cama dela. Ela levou a pipoca, apagou a luz e se aconchegou ao lado dele. Viram o filme e adormeceram antes do fim. Pernas entrelaçadas, mão dadas, respiração no pescoço.
O dia raiou, ele se levantou, se trocou, fez o café, comprou pão e o jornal na padaria da esquina. Tirou o carro da garagem dela e foi embora. Trocou de roupa no carro. Deixou a roupa da noite anterior na lavanderia.
Ela acordou, o café estava na mesa acompanhado de uma flor. Ela não sabia onde ele morava, qual o seu telefone mas sabia que o veria na próxima crise de insônia.
E então ela torceu para que a nova crise fosse aquela noite.